TRABALHO
Posted in Português on 05. Nov, 2004
A cada dia que passa me sinto cariocamente acoada entre a serra e o mar, entre a exclusão social e a violência. Há quase dois anos trabalho num recanto carinhosamente apelidado “Faixa de Gaza”. Há dois anos também atendo pelo denominação carinhosa “Itapirada”. E nesta loucura de viver entre tiroteios, invasões e mortes de “gerentes” ou “chefes” do tráfico, tento defender o pão nosso de cada dia nutrindo um pouco de amor pela profissão. Infelizmente, esse amor não está sendo suficiente…Hoje tive a prova mais idiota de todos esses dois anos pela simples castração do meu direito de ir e vir.
Desde do início do casamento, só abondono o meu posto de trabalho aceitando alguma carona ou esperando até às 22:30 a saída do transporte da empresa. Hoje, fiz diferente: – Voltei para a casa de ônibus! Tudo estaria perfeito se lá não estivesse um grupo de adolescentes completamente deslumbrados com a violência. Nada aconteceu, só sofri com a obrigatoriedade de escutar, com o coração cheio de medo, por longos 40 minutos, histórias (falsas ou verdadeiras) de assaltos, assassinatos e atos de ódio gerados por uma exclusão cotidiana.
Outro dia tive uma interessante conversa com um paulista vsivelmente inconformado com o conformismo dos cariocas. Em primeiro lugar, ele achava um absurdo o fato de os dois governantes mais importantes do estado terem sido eleitos no primeiro turno. Em segundo, ele defendia a tese de que nós não fomos moldados para a mobilização. “Se o bairro é violento, então é melhor blindar os vidros!!!”. E por último, o melhor! Com a desculpa de termos um dos lugares mais bonitos do mundo ao abrir as persianas, nos sentimos capazes o suficiente para esquecer toda a violência acachapante que nos assombra diariamente. Dotados de uma divindade inquestionável, esquecemos o que há de negativo ao chegar em casa e assistir à novela das oito!
Sinceramente, para mim fica cada vez mais díficil! Ou as coisas começam a mudar, ou eu vou praticar o amor à minha profissão em outro lugar!!! E como meta diária fica a expectativa de ser uma paulista exemplar!!!








Fica assim não! O medo passa e a indignação fica.
Bjs…